Durante as dinastias do Norte e do Sul, o
principal regime começou a atacar a área central da
China, e a ordem social foi rompida. Isto criou um crescente
interesse no estudo religioso. Em conseqüência, muitas
figuras religiosas entraram no país. Uma, em particular, foi
Bodhidharma.
Bodhidharma é uma figura obscura na história do
budismo. As fontes mais fiéis para nosso conhecimento
são Biographies of the High Priests (Biografias dos Altos
Sacerdotes) do Sacerdote Taoh-suan (654 d.C.) e The Records of the
Transmission of the Lamp (Os Registros da Transmissão da
Fonte de Luz Espiritual) do Sacerdote Tao-yuan (1004
d.C.).
Apesar destas fontes aparentemente
autênticas, os modernos estudiosos ou têm sido
relutantes em aceitar qualquer versão da existência de
Bodhidharma ou afirmam que Bodhidharma é uma lenda. Muitos
historiadores budistas, contudo, denominaram Bodhidharma o 28º
Patriarca do Budismo, dando provas de sua
existência.
Bodhidharma (também conhecido
como Ta Mo, Dharuma e Daruma Taishi) foi o terceiro filho do Rei
Sugandha do sul da Índia, foi um membro dos kshatriya, ou
casta guerreira, e passou sua infância em Conjeeveram
(também Kanchipuram ou Kancheepuram), a pequena
província budista do sul de Madras. Ele recebeu seu
treinamento em meditação budista do mestre
Prajnatara, que foi responsável pela mudança do nome
do jovem discípulo de Bodhitara para
Bodhidharma.
Bodhidharma foi um excelente
discípulo e logo se sobressaiu entre os colegas. Na
meia-idade já era considerado um mestre budista. Quando
Prajnatara morreu, Bodhidharma zarpou para a China. Duas
razões existem para isso: foi um desejo de seu mestre,
Prajnatara, no leito de morte; ou Bodhidharma ouviu falar dos
religiosos na China e se entristeceu com o declínio da
verdadeira filosofia budista lá.
Os relatos das atividades de
Bodhidharma na China variam consideravelmente. O livro Biografias
dos Altos Sacerdotes, de Tao-hsuan, afirma que Bodhidharma chegou
à China durante a dinastia Sung (420-479 d.C.) e as
dinastias do Norte e do Sul (420-581 d.C.) e mais tarde viajou para
o norte para o reino de Wei. Mas a data tradicional dada para a
entrada de Bodhidharma, segundo o livro Biografias dos Altos
Sacerdotes de Tao-hsuan que foi preciso em colocá-lo no
templo Yung-ning em Lo-yang em 520 d.C. O livro ainda afirma
posteriormente que um noviço budista chamado Seng-fu
juntou-se aos seguidores de Bodhidharma, foi ordenado por
Bodhidharma e então viajou para o sul da China, onde morreu
com a idade de 61 anos. Um simples cálculo matemático
nos diz que se Seng-fu estava de fato com 61 anos em 524 d.C. e
possuíra a idade mínima aceitável para
ordenação (20 anos), teria estado com 20 anos em 483
d.C., colocando o monge indiano na China mais cedo do que a data
tradicional.
Uma variação no tema
acima, encontrada em Os Resgistros da Transmissão da Fonte
de Luz Espiritual, situa Bodhidharma em Cantão em 527 d.C.
Após passar algum tempo lá, ele viajou para o norte,
encontrando o Imperador Wu da dinastia Liang (502-557 d.C.) em
Ching-ling (agora Nanquim).
Quando Wu viu Bodhidharma (diz a lenda), ele lhe perguntou: "Eu
trouxe as escrituras de seu país para o meu. Construí
templos de grande beleza e fiz com que todos abaixo de mim
aprendessem as grandes doutrinas budistas. Que recompensas eu
receberei na próxima vida por isso?"Bodhidharma replicou:
"Nenhuma!" (referindo-se à crença budista de que se
você fizer alguma coisa esperando recompensa, pode esperar
nada).O rei ficou tão furioso que baniu Bodhidharma do
palácio. Bodhidharma novamente se dirigiu para o
norte.
Viajou para a província Honan
atravessando o rio Yuang-tse (diz a lenda) num bambu.
Estabeleceu-se no monastério Shaolin (também chamado
Sil-lum) no monte Shao-shih nas mostanhas Sung.
Depois de chegar ao templo Shaolin, ele meditou em frente a uma
parede por nove anos. Em sua meditação, fundou o
budismo ch'an. A lenda diz que além de formar o ch'an,
Bodhidharma também fundou o Kung Fu. Contudo, vimos que o
Kung Fu já existia com muitos nomes diferentes por toda a
história da China.
É mais provável que, sendo um
mosteiro, Shaolin abrigasse muitos fugitivos da justiça,
fugitivos que eram também guerreiros hábeis
tornavam-se monges. Contudo, acredita-se que Bodhidharma tenha
fundado uma série de exercícios que ajudavam a unir a
mente e o corpo - exercícios que os monges guerreiros
achavam benéficos a seu treinamento. Dois famosos
clássicos, Sinew Change Classic e Washing Marrow são
tidos como escritos por Bodhidharma ou seus seguidores baseados em
seus ensinamentos. Destes clássicos vieram empregos da luta
na forma do punho de pedra e das 18 mãos de lohan. Durante
esta época, as artes marciais da China separaram-se em duas
formas distintas: boxe interno (nei-chia) e boxe externo
(wai-chia).
O estilo Shaolin de Kung Fu começou
sua segunda transição durante a dinastia Yuan
(1206-1333 d.C.), quando um monge chamado Chueh Yuan (também
chamado Hung Yun Szu) aperfeiçoou o sistema para reunir 72
formas ou técnicas. Mais tarde, os 72 movimentos foram
estudados por Pai Yu-feng e Li Cheng da província Shansi.
Além dos métodos de Chueh Yuan, eles também
estudaram as 18 mãos de lohan de Bodhidharma e fundiram os
métodos para inventar 170 técnicas. Estes 170
métodos formaram a base do atual estilo Shaolin, um estilo
que é muito complexo em seus métodos e
diversificação. Pai Yu-feng ensinou que um homem tem
cinco príncipios: força, ossos, espírito,
tendões e ch'i (energia interior).
Seus 170
métodos continham a essência de cinco animais. Eram
eles a serpente (she), o leopardo (pao), a garça azul (hao),
o dragão (lung) e o tigre (hu). O tigre ensinou o
método de força dos ossos; o dragão
desenvolveu grande força do espírito; a garça
azul ensinou o treinamento dos tendões; o estilo do leopardo
representou extrema força e a serpente instruiu na
capacidade de fluir o ch'i.
O sistema Shaolin desmembrou-se em cinco
estilos distintos. Isto porque havia cinco templos Shaolin em
vários distritos. O sistema original veio da
província de Honan. Os outros sistemas foram chamados de
acordo com as províncias em que se situavam os templos:
O-mei, Wu-tang, Fukien e Kwang-tung. No sul (Cantão), as
cinco variedades de Kung Fu Shaolin desenvolveram-se em sistemaas
familiares: Hung, Lau, Choy, Li e Mo.
Cada uma dessas cinco famílias desenvolveu suas
próprias artes:
Hung Gar: Da família Hung. Fundado por Hung Hei Gung. Usa a
força externa e exercícios de tensão
dinâminca e é excelente para desenvolver
músculos e posturas fortes.
Lau Gar: Da família Lau. Fundado por
Lau Soam Ngan, é um excelente sistema baseado em
métodos manuais de médio alcance.
Choy Gar: Da família Choy. Fundado por Choy Gau Yee, este
não é o sistema Choy Li Fut que é tão
popular hoje. Embora tenha algumas semelhanças, a marca
registrada de Choy Gar são seus métodos de ataque a
longo alcance.
Li Gar: Da família Li. Fundado por Li Yao San, este sistema
usa ataques de médio alcance com um murro poderoso de
médio alcance.
Mok Gar: Da família Mok (ou Mo). Fundado por Mok Ching Giu,
este sistema tem socos de curto alcance e métodos de chute
muito poderosos.
O mais fascinante aspecto dos 170 métodos de Pai é
seu fundamento nos movimentos dos animais, a saber, o tigre, o
dragão, a garça azul, o leopardo e a
serpente.
A garça azul (hao) é um
estilo baseado em métodos e técnicas para fortalecer
os tendões. Ele enfatiza o equilíbrio, o trabalho dos
pés complexo e rápido, e um único movimento do
punho chamado o bico da garça, no qual todos os dedos se
unem na ponta para aplicar ações de bicar. A marca
registrada do estilo garça azul é sua postura de uma
perna e um punho muito alongado (chang ch'uan). Além destas
técnicas, a garça aul também usa um punho
curto (tuan ch'uan), técnicas de armadilha com o pulso e uma
variedade de chutes.
O estilo do leopardo (pao) desenvolve poder, velocidade e
força, especialmente na parte inferior do corpo. O
método do leopardo exibe golpes penetrantes e rápidos
e uma atitude mental feroz.
A serpente (she) é talvez o aspecto
mais interpretado dos cinco animais (wu-chia ch'uan), já que
desenvolve a misteriosa energia intrínseca chamada ch'i. O
estilo em si realça a elasticidade dos tendões e
ligamentos, flexibilidade, movimentos diagonais defensivos e
ofensivos e ataques velozes com os dedos. A mão da serpente
usa às vezes dois dedos (o do meio e o indicador) ou os
quatro dedos (que é o mais usado). O ataque com os dedos
são aplicados nas partes moles do corpo do
adversário, com movimentos circulares que açoitam,
golpeiam de leve e saltam.
O dragão (lung), um animal
mítico do folclore chinês, desenvolve
autoconfiança. Movimentos técnicos são
aplicados com fortes torções do corpo (como a
torção e sacudidela violenta do corpo e rabo do
dragão). O estilo do dragão também usa uma
postura baixa e potente do cavalo e desenvolve espírito
forte por meio da graça e flexibilidade. Muitos sistemas
completos de Kung Fu se originaram dos movimentos do dragão.
A maioria se destaca por seus movimentos fluentes, técnicas
de mão abundantes (umas 12 danças do punho ou kuen),
chutes fortes e rápidos, uma variedade de movimentos
circulares de perna e umas 28 séries de
armas.
O tigre (hu) desenvolve força por
meio do uso de tensão dinâmica e usa esta força
para resgatar poderosas técnicas de mão de posturas
muito baixas. A técnica de mão básica que
distingue este estilo dos outros é a garra do tigre. O
estilo do tigre geralmente investe para cima. (Existem, contudo,
exceções onde o estilo do tigre investe para fora
horizontalmente.)
Com o príncípio dos 170 métodos de Pai, o Kung
Fu começou um novo período de crescimento. Contudo, o
Kung Fu não começou no templo Shaolin, como muitos
acreditam. Em vez disso, o Kung Fu começou a florescer
através da influência de Shaolin. Por volta desta
época, o Kung Fu passou a ser categorizado como estilos
(métodos) do Norte e do Sul. O rio Yuangtze é
tradicionalmente a demarcação entre o Norte
(mandarim) e o Sul (cantonense).
Os sistemas do Norte destacam-se por suas
técnicas de perna e seus padrões muito elegantes e
extremamente trabalhados. Os métodos são ligeiros e
graciosos. As técnicas do Norte adotaram esta
especialização (de acordo com a lenda) por causa do
terreno montanhoso que desenvolvia pernas fortes. Outros acreditam
que o tempo inclemente forçava as pessoas a usar roupas
pesadas. Isto exigia pernas fortes, já que a parte superior
do corpo era difícil de se mover com
rapidez.
Os estilos do Sul, por sua vez, não
usam os métodos acrobáticos do Norte, e por causa
disto muitos acham que são mais fáceis de se
aprender. Os estilos do Sul usam posturas baixas, técnicas
de mão potentes e chutes baixos rápidos. O povo
cantonense, que pronuncia Kung Fu como Gung Fu, é mais baixo
e mais atarracado e prefere usar métodos de mão. A
lenda diz que como o Sul da China tem mais pântanos e
água, o povo sulista remava mais, o que desenvolvia seus
braços para técnicas de mão. Os praticantes do
Gung Fu baseiam-se na velocidade, força, agilidade e
resistência para executar seus ataques e
defesas.
Os dois estilos mais
singulares que se originaram do Kung Fu Shaolin são a palma
de ferro (t'ieh chang) e a mão de veneno (dim mark). A palma
de ferro refere-se ao método de condicionar externamente a
mão para torná-la dura. A idéia é ter
uma arma sempre disponível que consiga atacar com a
força da morte. Os praticantes da palma de ferro usam
ungüento de ervas chamado dit da jow. Usando isto, as
mãos não demonstram sinais da capacidade
mortífera.
A mão de veneno refere-se à capacidade de atingir
centros nervosos para causar um ferimento antagônico. Os
praticantes da mão de veneno usam mais o ch'i (energia
interior) do que condicionamento
físico.
Quando
utilizada, há poucos sinais de
ferimentos externos; contudo, a energia destrutiva danífica
os órgãos internos.